Há cem anos “nascia” o Hinário Luterano


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04/09/2020 #Artigos #Editora Concórdia

Ao proclamarmos a Palavra de Deus com hinos e cânticos da liturgia, o Hinário Luterano também fixou em nossas mentes e corações a palavra da salvação eterna

Há cem anos “nascia” o Hinário Luterano

No Mensageiro Lutherano de 15 de setembro de 1920, está registrado, na seção “Diversas Noticias”, o seguinte:

Sahiu do prelo na semana passada o livrinho “Hymnos e Orações”. Este livrinho é a segunda obra editada da Agencia Concordia para a missão luzo-brasileira. – Os hymnos são bem escolhidos e as melodias baseam-se nos hymnos do nosso Hymnario da Concordia Publishing House. As orações são escolhidas para todas as ocasiões. A impressão é nítida e acham-se intercalados nas páginas dois “clichés”, mostrando o primeiro Christo na Cruz e o segundo a Santa Ceia.

Na mesma página da notícia acima está registrada uma visita:

Esteve em nossa typographia, na semana p. p., o sr. Rev. Rodolpho Hasse [..]. O rev. R. Hasse é o primeiro e muito esforçado pregador do nosso campo missionário luzo-brasileiro em Lagôa Vermelha e um dos redactores do nosso órgão synodal, redigido na vernácula, o “Mensageiro Lutherano”.

Pelos relatos acima vemos que o pequeno hinário, denominado Hymnos e Orações foi publicado na primeira quinzena de setembro de 1920. Portanto, estamos diante do centenário do primeiro hinário em português editado na Igreja Evangélica Luterana do Brasil. Este Hymnos e Orações foi o embrião do nosso atual Hinário Luterano (HL). Depois, em 1938, foi feita a primeira edição do Hinário Evangélico Luterano e em 1986 foi feita a primeira edição do nosso atual Hinário Luterano. Entre 1938 e 1986 algumas revisões e acréscimos foram realizados, e na edição a quatro vozes, de 2016, também houve pequenos acréscimos de melodias e hinos. Finalmente, na edição do HL somente letras, de 2018, ainda foi acrescentado o hino “Meu Senhor, tu me deste”, vencedor do concurso do hino para os 500 anos da Reforma. Para uma história completa dos hinários em português na IELB, veja o artigo “O Hinário Luterano na Ótica do Mensageiro”, setembro de 2019 aqui).

 

O que, ou quais as razões que nos levam a celebrar o centenário de um hinário? Poderíamos iniciar a lista dos motivos para celebrar o centenário do HL dizendo que um bom hinário é também um bom livro de doutrina. O hinário oficial de uma denominação religiosa vai expressar o que aquela denominação ensina e crê. O Hinário Luterano da IELB mostra isso claramente. Os textos dos hinos são fundamentados na ação de Deus em nosso favor para a nossa salvação. Fica muito claro nos hinos do HL que a nossa salvação é somente pela fé em Jesus que já fez tudo pela nossa salvação, e que, movidos por esta fé somos impulsionados por Deus a praticar boas obras, entre as quais está o canto de hinos.

Devemos a Lutero a iniciativa de fazer com que o povo cantasse novamente no culto. Durante toda a Idade Média, o povo praticamente assistia ao culto sem ter uma parte ativa nele. Com o incentivo ao canto congregacional, Lutero toma a iniciativa de devolver ao povo o canto congregacional, o que era prática comum na igreja antiga. Com o incentivo de Lutero ao canto congregacional começaram a surgir hinários. Lutero prefaciou alguns hinários. No prefácio ao hinário Wittemberguense de 1524, Lutero escreveu:

No meu entender, nenhum cristão ignora que o canto de hinos sacros seja bom e agradável a Deus [...] O próprio S. Paulo o institui em 1Co 14 e ordena aos colossenses que cantem com vontade ao Senhor hinos sacros e salmo, para que desta maneira a Palavra de Deus e a doutrina cristã sejam propagadas e exercitadas das mais diversas maneiras.[1]

Esta citação de Lutero deixa bem claro o conteúdo que deve conter nos hinos: que “a Palavra de Deus e a doutrina cristã sejam propagadas e exercitadas”. Ele declarou o que queria nas suas próprias composições:

[...] reuni alguns hinos sacros a fim de propagar e dar impulso ao santo Evangelho que ora voltou a brotar pela graça de Deus, para que também nós possamos nos ufanar, como o faz Moisés em seu cântico em Êx 15, que Cristo é o nosso louvor e canto, e nada saibamos cantar nem dizer senão a Jesus Cristo, nosso Salvador, como diz Paulo em 1Co 2.[2]

No prefácio ao hinário de Babst, de 1545, Lutero escreve sobre a motivação para o canto:

Deus alegrou nosso coração e ânimo por meio do seu Filho amado, o qual ele nos deu para a redenção de pecados, morte e diabo. Quem nisso crer seriamente, não pode deixar de ficar contente e decantá-lo e anunciá-lo com vontade, que também outros o ouçam e se acheguem.[3]

As liturgias que estão no HL também são instrumentos de ensino doutrinário e bíblico. Apesar das constantes reformas litúrgicas que precisam ser feitas de tempos em tempos, devido a atualizações de linguagem e música, o conteúdo dessas liturgias tem atravessado séculos de testemunho e de aprendizado da Palavra imutável de Deus. Essas liturgias históricas estão presentes também em outras denominações mostrando que elas pertencem à igreja de todos os tempos.

Um hinário de uma denominação cristã vai enfatizar que o Deus verdadeiro se revelou na Trindade como Pai, Filho e Espírito Santo. Portanto, nas liturgias e nos hinos isso também fica claro. As “Ordens para o Culto Principal”, ou seja, para o culto com celebração da Santa Ceia, iniciam nos lembrando quem oficia e a quem é dirigido o culto. É para aquele em cujo nome também fomos batizados: “Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Portanto, as liturgias, igualmente os hinos, nos mostram que o culto cristão é diferente de cultos pagãos, uma vez que este culto, com sua liturgia e seus hinos, é do Deus que se revelou em Cristo como “Pai, Filho e Espírito Santo”.

Na questão didática, é oportuno lembrar que a junção de texto e música é eficaz para deixar gravada em nossa memória o conteúdo dos hinos. Esse fato é notório com pessoas idosas que perdem a memória das coisas que aconteceram recentemente. Todo pastor pode citar momentos devocionais, em seu ministério, com pessoas que não conseguem mais assimilar coisas novas ou fatos recentes. Mas quando ouvem hinos e liturgias que cantaram durante a sua vida, são capazes até de cantar junto, formando uma união com a fé da igreja, expressa nesses cantos.

O centenário do Hinário Luterano nos faz refletir e agradecer a Deus por todas as oportunidades que a IELB teve de proclamar a Palavra de Deus por meio de seus hinos e das liturgias. E ao proclamarmos a Palavra de Deus com hinos e cânticos da liturgia, o Hinário Luterano também fixou em nossas mentes e corações a palavra da salvação eterna.

[1] LUTERO, Martinho. Prefácio ao hinário Wittenberguense de 1524. In: Martinho Lutero, obras selecionadas, v.7, p. 480. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2000.

[2] Idem, p. 481.

[3] LUTERO, Martinho. Prefácio ao hinário de Babst de 1545. In: Martinho Lutero, obras selecionadas, vl.7, p. 481. São Leopoldo/Porto Alegre: Editora Sinodal/Concórdia Editora, 2000.

 

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Raul Blum

Pastor, maestro, coordenador da Comissão de Cultos da IELB

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