Castelo Forte é nosso Deus


30/10/2019 #Artigos #Editora Concórdia

refúgio, fortaleza e conforto nas tribulações

Castelo Forte é nosso Deus

O ano de 2019 marca 502 anos de bênçãos da Reforma Luterana. No dia 31 de Outubro de 1517, Martinho Lutero afixou as 95 teses à porta da Igreja do Castelo em Wittenberg. As teses foram escritas em Latim, e através delas Lutero desejava tão somente conclamar a um “debate sobre o poder e eficácia das indulgências”. Indulgências eram vendidas pela Igreja da época em prol das almas do purgatório e da arrecadação de fundos para a construção da catedral de Roma. A questão central das teses é a respeito da salvação do ser humano – de quem a inicia, processa e efetiva, Deus ou o homem?

A razão principal que levou Lutero a publicar as 95 teses, como ele mesmo escreveu, foi o seu amor e compromisso para com a verdade da Palavra de Deus e o seu desejo de trazer esta verdade à luz em benefício da salvação de todas as pessoas. As teses foram traduzidas para o alemão, impressas e espalharam-se rapidamente por toda a Europa. Um movimento, pequeno a princípio, restrito a uma universidade, espalhou-se como rastilho de pólvora, tornando-se global e mudando para sempre o mundo.

A Reforma liderada por Lutero é lembrada e celebrada por cristãos no mundo inteiro, especialmente por luteranos, em reconhecimento e gratidão a Deus por ter resgatado sua Igreja do cativeiro babilônico de heresias e idolatria de volta à Escritura Sagrada, através de seu servo Lutero.

A herança da fé que confessamos – legado disponível para todos

Através de cinco séculos, luteranos têm sido mantidos firmes pela graça de Deus a continuar crendo, ensinando e confessando as mesmas verdades bíblicas trazidas à luz por Lutero. Cremos, ensinamos e confessamos o Sola Scriptura, em que a Escritura Sagrada é a pura e verdadeira Palavra de Deus, inspirada pelo Espírito Santo e poderosa para a salvação de todo aquele que crê. Cremos, ensinamos e confessamos o Sola Gratia, em que a graça de Deus somente, e não obras ou méritos humanos, pode nos salvar. Cremos, ensinamos e confessamos o Sola Fide, em que somente pela fé em Cristo, oferecida e operada no coração do ser humano pelo Espírito Santo através da Palavra de Deus, realiza a salvação do pecador. Cremos, ensinamos e confessamos o Solus Cristus, em que Jesus Cristo somente é o Caminho, a Verdade e a Vida, e que ninguém vai a Deus senão por intermédio da fé nele como Salvador. Cremos, ensinamos e confessamos que as Confissões Luteranas expostas no Livro de Concordia são uma exposição clara, fiel e verdadeira das doutrinas da fé cristã contidas na Escritura Sagrada.

 

A herança da fé confessada por Lutero

Em todos os seus escritos e durante todo o seu ministério, Lutero não apenas pregou e ensinou essas verdades, mas primeira e pessoalmente as creu e confessou. Em sua explicação do Credo Apostólico ele testemunha: “Creio que Deus me criou a mim e a todas as criaturas”. “Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus, gerado do Pai desde a eternidade, e também verdeiro homem, nascido da virgem Maria, é meu Senhor.” “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo como Senhor, nem vir a ele, mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, me iluminou com os seus dons, me santificou e conservou na verdadeira fé.” O apóstolo Paulo diz em Romanos 10.9-10: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação”. Como Paulo, Lutero creu e confessou a verdade de Cristo.

 

Um aspecto marcante da vida de Lutero foi seu apego irrestrito à Palavra de Deus, sua dependência e confiança absoluta no seu poder e misericórdia através de Jesus Cristo. Esse aspecto vemos especialmente no hino da Reforma, o “Castelo Forte”, inspirado no Salmo 46. Lutero escreveu mais de quarenta hinos. Seu costume nas devoções de família era também de cantar. Ele dizia que quando o diabo se aproximava dele com suas tentações, respondia algo como: “Afaste-se, Satanás, tenho muito que fazer hoje; necessito tocar e cantar... e não tenho tempo para você”. O hino “Castelo Forte” está traduzido em mais de 200 línguas hoje. É chamado um hino de batalha, mas muito mais, é um hino fundamentado, inspirado e composto sobre a Palavra de Deus – de extraordinário conforto e consolo.

Não sabemos por certo quando Lutero compôs o “Castelo Forte”. É bem provável que tenha sido composto em algum momento durante os anos 1527-1528. Segundo Lutero, o período entre 1521 e 1528 foram os anos mais difíceis e desafiantes de toda a sua vida e ministério: pela história sabemos que havia problemas na Igreja e na sociedade em geral. Entre esses, os problemas da venda de indulgências, idolatria, negação da corrupção total do ser humano, negação da eficácia do Santo Batismo e da presença real de Cristo no Sacramento da Santa Ceia, e outros. Politicamente, a Europa estava dividida. Cidadãos radicais estavam rebelados contra as instituições do Estado, ao ponto de anarquias extremadas em algumas partes. Lutero continuou firme, ensinando e testemunhando as verdades da Palavra de Deus. Em agosto de 1527, ficou chocado com a notícia do martírio de um dos seus grandes amigos e discípulos, Leonard Kayser, queimado por confessar Cristo. Lutero havia escrito a Leonard para permanecer firme na fé e na confissão do amor de Jesus em meio às ameaças dos inimigos. Lutero ficou profundamente consternado com o martírio do amigo, e somente pela graça de Deus, depois de algum tempo, superou a dor do luto.

 

Durante este período os efeitos da peste negra ou bubônica continuavam a devastar e matar milhares de pessoas, especialmente na região de Wittenberg. Príncipes e amigos de Lutero recomendaram que ele se retirasse da região, procurasse escapar e “salvar sua pele”. Ele rejeitou e se opôs veementemente ao pedido. Resoluto e determinado, permaneceu para cuidar dos que sofriam. Transformou sua casa em um abrigo e hospital para cuidar dos enfermos. Ele e sua esposa Catarina, noite e dia, alimentavam e tratavam dos doentes. Catarina estava grávida do segundo filho. No dia 10 de dezembro de 1527 ela deu à luz a sua filha Elizabeth, que nasceu muito enferma e fraca, com risco de vida. Elizabeth veio a falecer em agosto de 1528. Segundo Lutero, os oito meses entre o nascimento e morte da filha foram marcados por provações e sofrimentos, por lutas e orações incessantes a Deus em favor da vida da filha. Em janeiro de 1528, ele escreveu a um amigo e informou que estava passando por um dos períodos de maior tentação e provação de sua vida. Estava fatigado e exausto, sob pesada cruz de sofrimento emocional e físico. Ele escreveu: “Estamos todos com boa saúde, com exceção de Lutero, que está bem fisicamente, mas o mundo exterior e o diabo com os seus anjos estão fazendo que ele sofra interiormente”.

 

Castelo Forte é nosso Deus, defesa e boa espada

Com as armas da fé com as quais Deus nos agracia –  a Palavra, espada do Espírito, o poder de Deus, o capacete da salvação e a oração – Lutero pôde resistir aos dardos inflamados de Satanás. Deus o firmou e sustentou pela âncora do seu amor. Na mais profunda tribulação física e emocional, Deus lhe deu forças para compor, cantar e nos legar o “Castelo Forte”. Quando exteriormente tudo parecia de mal a pior, para a alma de Lutero, sua comunhão com Deus, tudo estava bem por causa do amor de Cristo. Ele podia cantar: “Sou feliz com Jesus, meu Senhor!” Deus diz: “Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás” (Sl 50.15). Lemos no salmo 91.1-4: “O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente diz ao SENHOR: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio. Pois ele te livrará do laço do passarinheiro e da peste perniciosa. Cobrir-te-á com as suas penas, e, sob suas asas, estarás seguro; a sua verdade é pavês e escudo”. Lutero aprendeu e viveu na prática da vida sob tribulação que Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente. Aprendeu com Paulo que, por causa do amor e testemunho de Jesus, quando somos fracos, então é que somos fortes, porque o poder de Deus se aperfeiçoa em nossa fraqueza. Aprendeu e foi fortalecido e firmado pelo convite amoroso de Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma” (Mt 11.28-29).

 

Através do hino “Castelo Forte”, Lutero creu, confessou e ensinou que Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações. Ele é o Criador e sustentador de tudo e de todos. Ele é ajuda bem presente em toda e qualquer tribulação. Satanás e seu exército das trevas são poderosos. Sabem lutar, com força e ardil sem par; igual não há na terra. Não temos forças por nós mesmos para vencer. Mas o nosso Deus nos livra da angústia desde os céus; quebra e destroça os dardos inflamados do maligno. Vence na batalha por nós e triunfará na batalha final.

 

Quem é o vencedor?

Não há outro do que “Jesus Redentor, o próprio Jeová, pois outro Deus não há. Triunfará na luta”. Por duas vezes no salmo 46 o autor nos diz que o nosso Deus, refúgio e fortaleza, é o Emanuel, o Deus-conosco (vv. 7,11). Emanuel veio a nós, carregou e suportou o peso da cruz dos nossos pecados. Em nosso lugar carregou nossa vergonha, suportou nossos açoites, concedendo-nos a salvação eterna. “Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” (Rm 5.6). “Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5).

 

Segundo Lutero, o maligno vencido cairá por uma só palavra. Através do ministério de Jesus testemunhamos várias vezes o seu grande poder e milagres em destruir o poder do diabo. Pequenas palavras, mas com absoluto poder e eficácia: “Arreda, Satanás!” “Cale-se!” “Saia dessa vida!”. A pequena palavra culminou e soou na cruz, com o suspiro da vitória, “Tetélestai”, “Está consumado”. “Está concluída a obra salvadora em favor de toda a humanidade decaída. Por causa do meu sacrifício e derramamento do meu sangue todos têm acesso ao pai pela fé em mim. Satanás não tem mais poder sobre os que creem em mim como Salvador.” O que para Satanás parecia vitória, era realmente derrota total para ele.

 

Quem é o vencedor?

É o nosso Jeová, Emanuel, o grande ‘Eu Sou’. Ele nasceu criança, em pobreza, indefesa, rodeada de inimigos desde o berço, perseguido. Mas é Deus que fala às ondas e acalma os temporais; ressuscitou mortos, alimentou milhares com cinco pães e dois peixinhos – quantidades impossíveis e inconcebíveis à razão e força humanas. Ele é a ressurreição e a vida, a luz do mundo, o pão da vida, o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o caminho, a verdade e a vida, o que era, é e há de vir, o Todo-Poderoso, o bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. Ele nos assegura que veio para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância.


Lutero exclama no “Castelo Forte”: “Seremos vitoriosos. O céu é nossa herança.” Jesus diz à sua igreja: “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32).O reino do diabo está julgado. O reino eterno de Cristo nos está garantido. No Juízo Final veremos nosso Rei face a face. Todo olho o verá, mesmo os que o traspassaram. Os remidos receberão a posse do reino através do convite final: “Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34).Deus nos garante a vitória e a herança por sua graça, através do sacrifício de Cristo por nós, sem esforço ou merecimento algum de nossa parte. O salmo 46 aponta para esta herança, o santuário das moradas do Altíssimo, o rio que alegra a cidade de Deus, morada que jamais será abalada. Jesus nos convida à fonte das águas do rio da vida, dizendo: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.37-38). Ele nos assegura: “Aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.14).

 

Conclusão

Agradecemos humildemente a Deus pela rica herança de fé e vida bíblica transmitida a nós por seu servo Lutero; por ter inspirado, fortalecido e usado a Lutero a trazer de volta à luz a verdade pura, imutável e eterna da Palavra de Deus. Agradecemos pela nuvem de testemunhas, que antes e depois de Lutero permaneceram fiéis e firmes até o fim na Palavra de Deus e a confessaram para muitos – mesmo em meio a tribulações e perseguições e diante do martírio.

Pela graça de Deus queremos lembrar-nos com gratidão a ele pelos heróis da fé. Queremos seguir nas suas pisadas de fé, consagração e fidelidade, com nossos olhos fixos em Cristo Jesus, o Autor e Consumador da nossa fé. Queremos permanecer unidos na mesma doutrina em Cristo, no mesmo Evangelho, no Batismo, na Santa Ceia e na comunhão da família da igreja até o dia final da nossa vida neste mundo.

 

Rev. Leonardo Neitzel

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