Devolvendo a Igreja aos leigos


28/08/2019 #Artigos

Confira a reflexão do trabalho conjunto na missão da Igreja

Devolvendo a Igreja aos leigos

Lideranças e fiéis das igrejas históricas (tradicionais) estão buscando respostas para a causa de seu decréscimo ou não crescimento numérico. Não há, com certeza, nenhuma resposta definitiva ou absoluta para essa realidade. Por acreditar que “mais vale acender um coto de vela do que praguejar contra a escuridão”, peço licença para algumas sugestões que podem ser úteis e aproveitáveis. 

Uma das queixas das pessoas que lutam pelo progresso das congregações ou denominações eclesiásticas é: “A Igreja está demasiadamente ‘clericalizada’”. Enquanto isso, a Igreja continua fazendo campanha forte por mais pastores e vocações ministeriais. Parece que as duas coisas se contradizem.

Informou-se que 75% dos participantes da última Convenção Nacional da IELB eram pastores (formados em Teologia) e apenas 25% eram irmãos e irmãs leigos (não pastores). Dos cinco atuais titulares da Diretoria Nacional da IELB (Gestão 2010-2014), somente um é leigo. Nos departamentos, comissões e conselhos nacionais, regionais ou distritais, e igualmente nas direções de escolas e entidades auxiliares, são preponderantes o número ou o ‘comando’ dos pastores. A abertura de novas missões, na opinião de muitos, só podem ser feitas por pastores.

A maioria das congregações lamenta o decréscimo de participação nas assembleias gerais, nos cultos, nos estudos bíblicos, nos departamentos e em outros encontros da ‘comunidade’. As contribuições (ofertas) mal ou nem cobrem os gastos administrativos. Pouco se investe em programas de crescimento espiritual e evangelização, nos serviços de ajuda aos necessitados da ‘família da fé’ e de caridade e no diálogo de amor com ‘os de fora’. São dos leigos essas congregações? Ou é hora de ‘devolvê-las’ a eles?

A Bíblia designa como ‘Igreja’: (1) O Corpo de Cristo - a única Santa Igreja Cristã ‘Católica’, composta por todos os cristãos, mas somente por eles; e (2) as Congregações Locais, que se reúnem para culto a Deus e pregação da Palavra. As denominações religiosas, como a IELB e outras muitas, são associações, sínodos ou comunhões de igrejas locais, organizadas e legalizadas para compartilhar recursos, cumprir compromissos e tarefas coletivas ou globais que ultrapassam a capacidade individual dos ‘parceiros’. Mesmo que estabelecidas no temor e no serviço de Deus, tais “igrejas” não o são no sentido original bíblico. Contudo, é tendência evidente que as congregações entreguem, por comodidade ou desconhecimento, cada vez mais dos seus deveres e direitos às denominações, e que estas, por seu turno, passem a centralizar e ‘comandar’ muito do que deveria ser controlado, feito e cuidado pela igreja local. Disso resultam situações que merecem atenção e repaginação periódica.

A congregação - célula local da Igreja Cristã – está perdendo muito da sua importância, da sua força e do seu efeito. Pouco consegue se reunir regularmente e em sua integralidade, porque seus pastores e membros ‘precisam ausentar-se’ frequentemente, ‘obrigados’ a participarem de inúmeros congressos, encontros, simpósios, fóruns e reuniões nacionais, regionais, estaduais e distritais. Isso dificulta que a igreja local, unida, estude, cresça e louve, faça planos e decida, realize e execute as coisas delegadas por Deus a ela. É tudo muito lindo, mas seu proveito real é discutível.

Deus entregou à congregação local (Igreja), não à denominação, o Ofício das Chaves – “o poder peculiar que Cristo deu à sua Igreja na Terra, para perdoar os pecados aos pecadores penitentes e retê-los aos impenitentes, enquanto não se arrependerem” (Catecismo Menor). Esse ‘poder peculiar’ é posto em prática pela e na congregação, através da pregação fiel e perseverante da Palavra de Deus (estudo, meditação, fé e prática) e do uso correto e frequente do Batismo e da Santa Ceia.

A igreja (congregação) chama, instala e encarrega o(s) pastor(es) para a administração pública do Ofício das Chaves. A congregação afiliada à IELB deve buscar conselho e ajuda junto aos dirigentes desta, mas cabe à congregação definir, no temor de Deus e com oração, “quem Deus escolheu para esse ministério e apostolado” em seu meio. Como ministro de Deus, servo e guia da congregação – jamais seu dono ou dominador - o pastor fará tudo para “ser encontrado fiel”. A congregação cuidará bem do seu pastor, honrando e apoiando-o como seu líder e guia espiritual. O pastor permanecerá por bons e abençoados anos entre os que o chamaram. Não “desistirá” diante das primeiras dificuldades. Ele e a congregação aprenderão juntos e unidos a não fugir das pedras do caminho, mas a suplicar que o Sumo-Pastor lhes indique como evitá-las ou como subir nelas, para avistar oportunidades ainda maiores.

Cada cristão recebeu de Deus “um dom especial” (Efésios 4.7), que deve ser utilizado na e pela Igreja. Haverá gratas surpresas onde e quando houver ousadia para “entregar” tarefas e delegar funções - com confiança e avaliação responsável – aos leigos consagrados, aptos e disponíveis nas congregações. Com planejamento adequado, treinamento perseverante e coragem, muitos pastores podem “deixar de servir às mesas” (Instituição dos diáconos, Atos 6.1-2), entregar até metade do que ocupa o seu tempo - e pode ser feito tão bem, ou melhor, por irmãos leigos - para dedicar-se mais e melhor à Palavra, ao estudo, à oração, ao ensino, ao crescimento e à qualificação dos santos para o serviço do Reino de Deus.

Estamos propondo delegar ou compartilhar, parcial ou totalmente, funções como: participar nas decisões referentes a horários e ordens de culto e reuniões, textos e temas para os sermões e estudos, oportunidades para esclarecer dúvidas coletivas e individuais; responsabilidade pela música, corais e bandas, por equipamentos e programações eletrônicas e multimídia; cuidados com o patrimônio e edificações, ornamentação e adequação de ambientes; assumir parte das visitas aos lares, hospitais asilos, prisões e necessitados; buscar os relapsos, afastados e prospectos missionários; atuar nos programas de ensino nos diferentes níveis e do estudo da Palavra. Nas congregações, existem hoje irmãos leigos muito qualificados para conferências e palestras em departamentos, encontros e congressos, e não raramente mais versados e disponíveis em áreas específicas do que os “clérigos generalistas” habitualmente lembrados na Igreja.

Ocorreu-me, outro dia, o pensamento de que pode haver situações em que seria mais pragmático e econômico contratar um(a) secretário(a) qualificado(a) e capacitado(a), de acordo com um perfil pré-estabelecido, do que “chamar mais um pastor”. Tal pessoa “aliviaria” o pastor das obrigações “não pastorais” e das demandas burocráticas (telefone, registros, atendimento ao público, mídia, programas radiofônicos, etc.) e o liberaria para cuidar das funções que sem ele não podem ser levadas a efeito.

O que se sugere não é novidade para alguns pastores e congregações. Sua concretização depende de muito trabalho e acontece aos poucos. Exige determinação, confiança, treinamento apropriado, supervisão responsável e segurança da bênção do “Supremo-Delegador” e Mestre Jesus. É evidente que esse ‘devolver a Igreja aos leigos’ só acontecerá onde estes se declararem prontos para assumir e trabalhar, mais do que habitualmente ocorre nas congregações, e onde os pastores, com o apoio e o incentivo imprescindível dos líderes da denominação, ‘acreditarem’ no potencial que são os leigos cristãos. Eles não devem ser limitados à condição de “paymen” (os que pagam) ou de “torcida” (os que assistem da arquibancada), mas devem sentir “nas canelas” a dureza da luta e no coração as alegrias e as recompensas da vitória.

O objetivo no que puder ser aproveitado e efetivado das ideias apresentadas não deseja ser ‘tirar a Igreja dos pastores’ ao sugerir que ela seja ‘devolvida aos leigos’. O objetivo deve ser um enriquecimento coletivo e individual na Igreja, um “passar adiante e compartilhar” dos pastores aos líderes, e destes, paulatina, mas decididamente, a todos os membros da Igreja. O resultado poderia levar as congregações da IELB a contarem com duzentos e poucos mil ‘missionários’ e testemunhas habilitados, ativos, vitoriosos e felizes no Senhor. 

Nota: Texto publicado no Mensageiro Luterano de janeiro/fevereiro 2013, p. 22. 

Johannes H. Gedrat

Ex-presidente da IELB *08/08/1934 + 29/07/2019

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